top of page

Travessias: Narrativas de imigrantes trans+ Venezuelanas em Manaus, Brasil

6 days ago
5 min read

Updated: 22 hours ago

Por Thi Bogossian 

Chocolate Brownies
Arte no portão da Casa Miga, o único abrigo LGBTQ+ em Manaus. Acervo da autora

Imigrantes trans venezuelanas falam sobre deslocamento, violência e redes de apoio.


Nas últimas décadas, a Venezuela registrou avanços limitados em relação aos direitos LGBTQ+ quando comparada a outros países da América do Sul. Embora a homossexualidade não seja criminalizada, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é permitido e não existe reconhecimento legal de transição de gênero, o que torna o ambiente desafiador para minorias sexuais e de gênero. Além disso, desde 2010, o país enfrenta um grave colapso econômico e violência política, levando muitos venezuelanos a deixar o país. Estima-se que 6,95 milhões de venezuelanos (cerca de 20% a 25% da população) tenham se deslocado para outros países da América Latina e do Caribe. Enquanto a Colômbia (que atualmente abriga 2,85 milhões de venezuelanos) e o Peru (que abriga 1,64 milhão de venezuelanos) são os principais destinos, o Brasil ocupa o terceiro lugar, acolhendo mais de 10% da diáspora venezuelana (ou 760 mil venezuelanos).


Entre 2010 e 2023, a população venezuelana no Brasil cresceu quase 100 vezes, tornando-se o maior grupo de imigrantes no país. Em resposta a essa chegada em grande escala, o governo brasileiro mobilizou uma iniciativa de grande porte na fronteira e em outras partes do país. Denominada Operação Acolhida, liderada pelo Exército Brasileiro e apoiada pelo ACNUR e por organizações comunitárias e religiosas, a iniciativa incluiu a gestão de abrigos, a oferta de vacinação e documentação, e a administração de um programa voluntário para realocar venezuelanos do norte do Brasil para outras regiões.


Ao contrário da Venezuela, o Brasil oferece um marco jurídico relativamente avançado em termos de direitos e proteção LGBTQ+. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal, e pessoas trans podem alterar o gênero em documentos oficiais mediante autodeclaração, sem necessidade de diagnóstico médico (situação que ocorre em apenas outros 23 países no mundo). Nos casos em que as certidões de nascimento não foram atualizadas, documentos oficiais podem incluir o "nome social". O Sistema Único de Saúde do Brasil é constitucionalmente universal e, em princípio, oferece acesso gratuito independentemente de nacionalidade ou situação migratória. No entanto, o acesso depende de cadastro no sistema e de encaminhamento por serviços locais, e os tempos de espera variam em todo o país. As cirurgias de afirmação de gênero, em particular, podem envolver filas de espera de até 10 anos em algumas regiões. O país também registra, frequentemente, altos índices de violência. Embora não haja uma contagem oficial, o Grupo Gay da Bahia, organização que monitora esse tipo de violência desde 1980, estimou 257 mortes violentas em 2025 decorrentes da LGBTQfobia, o maior número registrado no mundo.


Nesse contexto, eu passei duas semanas em Manaus, no norte do Brasil, onde conheci sete mulheres trans e travestis* venezuelanas. Elas relataram que a falta de acesso a direitos LGBTQ+ ou específicos para pessoas trans não foi o motivo principal para terem deixado a Venezuela. Elas foram forçadas a migrar devido à violência constante e ao agravamento da crise econômica, que dificultavam o acesso a necessidades básicas como alimentação e medicamentos; suas identidade de gênero exerceram apenas um efeito indireto sobre suas oportunidades. A maioria das participantes já vivia abertamente como trans na Venezuela e algumas eram aceitas por suas famílias; no entanto, uma delas assumiu sua identidade trans no dia em que saiu de casa e iniciou sua jornada migratória, ao passo que outra começou sua transição no Brasil. No país de acolhimento, elas atuam no mercado informal, especialmente no setor de beleza e estética, ou trabalham por conta própria, inclusive com prostituição. Apesar disso, a situação econômica na Venezuela permanece tão crítica que muitas participantes ajudavam seus parentes enviando dinheiro, enquanto outras prepararam o caminho para que familiares também viessem para o Brasil.


Como esperado, a violência e a vulnerabilidade fizeram parte do cotidiano de muitas dessas mulheres trans venezuelanas, especialmente durante suas jornadas migratórias, mas também em momentos anteriores à migração e após o estabelecimento no novo país.


Aí, apareceu um caminhoneiro. “E aí, tá indo pra onde, morena?” “Não, eu tô querendo que alguém me dê uma carona para Boa Vista”. “Mas tu sabe, né, as condições”. Ele já foi falando pra mim, “mas tu sabe as condições, né? Hoje os caminhoneiros não dão carona de graça, não. É troca em troca, é troca por troca”. (Adriana)


O relato de Adriana ilustra como a mobilidade pode se tornar condicional e insegura, moldada pela coerção e por trocas sexuais. Algumas participantes também relataram ter vivido temporariamente nas ruas ou em terminais de ônibus, além de terem enfrentado fome, abusos e violência transfóbica e xenofóbica. Atualmente, embora muitas levem vidas mais estáveis ​(apesar da precariedade do emprego), elas ainda vivenciam microagressões e abusos verbais, situações que são, ao mesmo tempo, minimizadas e resistidas.


Apesar da violência ser comum, as mulheres trans venezuelanas também contaram que receberam ajuda de diversos atores sociais. Entre eles, incluem-se organizações da sociedade civil como Cáritas, Hermanitos e Casa Miga, que, apesar das limitações de recursos, oferecem informações, capacitação profissional, intermediação com empregadores, ensino de língua portuguesa, abrigo e apoio social e emocional. Como explicou Paloma:


Yo recibí varios beneficios así de instituciones así. Mi primer secador fue con ayuda de Cáritas. Que ainda tengo mi secador**. (Paloma)


Além das organizações da sociedade civil, o Estado brasileiro também foi descrito de forma positiva; mulheres trans venezuelanas relataram receber o Bolsa Família, o principal programa nacional de transferência de renda do país, e elogiaram a facilidade de regular os documentos e a vacinação proporcionada pela Operação Acolhida. Pessoas desconhecidas que ofereceram alimentos ou caronas durante a jornada migratória, bem como paróquias locais, também ofereceram alívio em momentos de extrema vulnerabilidade. Outros imigrantes e amigos da comunidade LGBTQ+ foram frequentemente citados como fonte de apoio e, em alguns casos, o reconhecimento institucional da identidade trans influenciou diretamente o acesso à proteção, conforme apontado por Catalina:


Entrei no abrigo por ser mulher trans, me deram prioridade, sim. Foi a primeira vez que eu me senti... que eu disse, “gente, que bom que eu sou trans, né?” (Catalina)


Após viverem no Brasil por cinco anos ou mais, a maioria dessas mulheres tornou-se um ponto de apoio para suas famílias. Suas trajetórias revelam liderança, resistência, resiliência e um forte desejo de reinvenção, a despeito de todos os desafios enfrentados. Muitas dessas mulheres expressaram aspirações de crescimento pessoal e profissional, como obter um emprego estável e renda segura, migrar para a Europa ou retomar os estudos universitários. Em um cenário no qual o discurso global de extrema-direita retrata migrantes e pessoas trans como símbolos de decadência nacional e civilizacional, as mulheres trans venezuelanas no Brasil demonstram como a sua própria existência é, por si só, um ato político.



*Travesti é uma identidade específica de não conformidade de gênero na América Latina, historicamente associada à marginalização, mas ressignificada por algumas pessoas.


**Recebi vários benefícios assim de instituições como essa. Meu primeiro secador de cabelo foi com a ajuda da Cáritas. Que ainda tenho meu secador.



Thi Bogossian 

Thi é cientista social interdisciplinar e trabalha com gênero, migração e educação. É bolsista de pós-doutorado da Marie Skłodowska-Curie Actions (MSCA) na Universidade do Porto, em Portugal, onde investiga migração trans+ no Brasil, e pesquisadore associade na Universidade de Glasgow, Reino Unido.


1 Comment


Johana Guanchez
Johana Guanchez
9 hours ago

Fue maravilloso poder participar . Un abrazo a la distancia Thi ❤️

Like
bottom of page