Como o Clubhouse se conecta com a diáspora ganense

KIRSTIE KWARTENG  |  23 JUNHO 2021  |  EDIÇÃO 15  |  TRADUZIDO DO INGLÊS

Imagem por Nathana Rebouças no Unsplash.

A diáspora ganense é grande, com um número estimado de 3 milhões de ganenses espalhados pela Nigéria, Estados Unidos, Reino Unido e muitas outras nações ao redor do mundo. Apesar da dispersão global, comunidades individuais de diáspora ganense, especialmente aquelas nas grandes cidades, são próximas e unidas. Elas são mantidas juntas por organizações e instituições criadas por imigrantes ganenses.

 

Nos primórdios da formação da diáspora ganense, envolvimento dentro das comunidades da diáspora focava em criar associações de compatriotas da mesma cidade natal, associações de grupos étnicos, instituições religiosas, e em replicar práticas culturais ganenses. O envolvimento da diáspora com a terra natal era feito através de visitas presenciais, envio de remessas, e comunicação através de cartas ou telefonemas. Conforme as mídias digitais evoluíram, o envolvimento da diáspora ganense evoluiu também. Ganenses na diáspora agora usam apps de fintechs como WorldRemit para enviar remessas, e apps de redes sociais populares como o WhatsApp, Facebook, Twitter e Instagram agora têm um papel importante na conexão entre o povo de Gana e a diáspora. A pandemia criou uma demanda maior para conexão digital na diáspora, uma vez que oportunidades de viajar para Gana e se envolver presencialmente em comunidades da diáspora ficaram limitadas. Um novo app de rede social, Clubhouse, ficou popular entre os jovens da diáspora ganense e aparentemente os está ajudando a satisfazer seu crescente desejo de se envolverem uns com os outros digitalmente.

 

Lançado em março de 2020, o Clubhouse é um app exclusivamente de áudio com mais de 10 milhões de inscritos que permite aos usuários ouvir conversas sobre diferentes tópicos em tempo real. O Clubhouse permite aos usuários seguir ou participar de clubes que são alinhados com seus interesses, assim como ouvir e participar de discussões entre moderadores do clube e convidados em diferentes tópicos, como música, política e acontecimentos atuais. O app ficou popular entre a diáspora ganense porque permite que eles se comuniquem em tempo real e se conectem de formas que outros apps de rede social não permitem. Um usuário do Clubhouse da diáspora ganense com quem falei disse que parecia “milagroso” encontrar e conversar com membros da diáspora ganense em diferentes fusos horários sobre suas experiências diaspóricas compartilhadas. Outros usuários da diáspora ganense que contatei disseram que o recurso de conexão em tempo real do app tornava fácil entrar em contato e fazer conexões com outros usuários da diáspora. Ao reduzir a distância entre as pessoas na diáspora ganense global, o Clubhouse foi capaz de criar e manter conexões em um tempo em que interações presenciais são limitadas.

 

 A busca por “Gana” no Clubhouse vai resultar em mais de 50 clubes, o que reflete uma gama ampla de necessidades de envolvimento e demografias dentro da comunidade diaspórica. Por exemplo, muitos clubes frequentados por jovens diasporanos tendem a espelhar organizações de jovens da diáspora do mundo real ao funcionar usando uma identidade pan-ganense, e incluir salas focando no aprendizado de línguas ganenses, herança e cultura, compreendendo o que é necessário para voltar a Gana, fazer contato com jovens ganenses que compartilham as mesmas opiniões, e aprendendo como podem usar seu tempo e habilidades para apoiar o desenvolvimento de Gana. Existem também clubes que servem como grupos de interesse ao conectar ganenses que compartilham interesses em determinados tópicos, como o Ghanaian Music Lounge, clubes para ganenses da mesma faixa etária ou gênero, como o Ghana Girls We Dey, e clubes para ganenses da mesma comunidade étnica, como o Ewe Vibes ou o Ga Language University. 

 

O maior e mais notável clube ganense, o Ghanaian Lounge, é um clube pan-ganense que tem 16.900 membros e 10.500 seguidores. Como o mais proeminente clube ganense, o Ghanaiam Lounge se tornou um microcosmo do uso do Clubhouse ganense e mostra como os ganenses estão usando o Clubhouse para atender suas necessidades de envolvimento diaspórico digitalmente. O Ghanaian Lounge hospeda diversas salas semanalmente incluindo salas de conversação para sete línguas ganenses para ajudar jovens ganenses a aprender suas línguas maternas, salas para discutir acontecimentos atuais ganenses, salas para contatos profissionais, e salas de encontros para quem está procurando aquele alguém especial. Além dos eventos semanais, o Ghanaian Lounge também hospeda salas de eventos especiais que são feitos uma vez só. Essas salas receberam uma variedade de convidados, da artista de dancehall ganense Shatta Wale até o Ministro da Informação de Gana.

 

Algumas das salas do Ghanaian Lounge deram ênfase específico nas relações diáspora-terra natal, incluindo conversas sobre os privilégios da diáspora e se a cidadania é um direito de nascença para ganenses em diáspora. Em 2019, o governo de Gana lançou o Ano do Retorno, uma iniciativa de um ano de turismo focada na diáspora ganense e na diáspora africana geral. O Ano do Retorno recebeu uma significativa atenção da mídia, o que aumentou o interesse em Gana e na sua relação com as diásporas ganense e africana. O Clubhouse se tornou um lugar para dar continuidade às discussões que o Ano do Retorno criou, principalmente sobre cidadania, pertencimento e retorno.

 

O uso do Clubhouse pela diáspora ganense mostra como métodos digitais podem ser usados para fortalecer e manter as relações diáspora-terra natal. A diversidade de discussões que acontece no espaço do Clubhouse ganense ilustra a variedade de interesses que a diáspora ganense tem e como estão usando o Clubhouse como espaço digital para envolver esses interesses. Além disso, o uso do Clubhouse ganense revela a importância de três elementos chave do envolvimento digital diaspórico. Primeiro, esclarece a importância de prestar atenção em qual plataformas de redes sociais são populares na comunidade em diáspora de interesse, para melhor se envolver com eles. Também, mostra a importância das redes sociais para se envolver com gerações mais jovens da diáspora. Envolver jovens da diáspora pode ajudá-los a se sentirem conectados ao seu país de ancestralidade, o que dará a eles mais incentivos para criar suas próprias conexões únicas com a terra natal que são diferentes das conexões de seus pais. E por fim, o Clubhouse mostra a importância de entender as necessidades da diáspora para usar as redes sociais como uma ferramenta efetiva para o engajamento da diáspora. Isso tornará mais fácil para as diásporas se envolverem, já que sabem que suas preocupações serão levadas a sério.

 

O tempo dirá se o Clubhouse permanece uma parte integral do envolvimento digital da diáspora ganense depois da pandemia, mas nesse meio tempo, o espaço do Clubhouse ganense continuará a servir de exemplo para o envolvimento diaspórico na era digital.

 

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Kirstie Kwarteng

Kirstie Kwarteng é contadora e curadora de histórias. Ela é atualmente candidata a um doutorado na SOAS, Universidade de Londres no Departamento de Estudos do Desenvolvimento e recebeu o Royal Geographical Society Dudley Stamp Memorial Award. Ela também é fundadora do The Nana Project, uma plataforma on-line dedicada a preservar a história de Gana através de relatos pessoais da história de Gana.

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This article is part of the issue ‘Empowering global diasporas in the digital era’, a collaboration between Routed Magazine and iDiaspora. The opinions expressed in this publication are those of the authors and do not necessarily reflect the views of the International Organization for Migration (IOM) or Routed Magazine.

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