INTIMAL: Uma escuta relacional que nos preparou de forma inesperada para a pandemia do COVID-19

COLECTIVO INTIMAL  |  23 JUNHO 2021  |  EDIÇÃO 15  |  TRADUZIDO DO INGLÊS

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Coletivo INTIMAL em Grån, na Noruega. Deep Listening® Intensive. Fotografia de Sharon Stewart.

*Este artigo foi escrito pela Dra. Ximena Alarcón-Díaz, pela Dra. Ana-María Alarcón-Jiménez e pela Dra. Liliana Rodriguez, do coletivo INTIMAL. O artigo incluirá as contribuições de todos os membros do coletivo INTIMAL.

1. Visão Geral

 

INTIMAL é um projeto de pesquisa de arte sonora desenvolvido por Ximena Alarcón para ouvir as nossas jornadas migratórias. Utiliza Deep Listening® (Escuta Profunda) e performance telemática como principais práticas criativas para expandir o nosso senso de lugar e presença, reunindo fragmentos de nossa experiência migratória para que possam ser percebidos e modelados como um todo. Nove mulheres migrantes colombianas que vivem em Oslo, Barcelona e Londres foram convidadas a ouvir tanto as suas experiências de migração para a Europa quanto um arquivo oral de testemunhos de outras mulheres colombianas na diáspora, a fim de abrir caminhos criativos para experiências de cura da saudade e da perda. O projeto foi financiado pela bolsa Marie Skłodowska Curie Individual Fellowship (2017-2019) e realizado na Universidade de Oslo.

 

O projeto INTIMAL (Interfaces for Relational Listening: Body, Memory, Migration, Telematics [Interfaces para a Escuta Relacional: Corpo, Memória, Migração, Telemática]) explorou como o corpo se transforma numa interface que guarda memórias de lugares e lançou o protótipo do sistema INTIMAL para improvisar e transmitir a experiência da escuta relacional às nossas migrações, utilizando interfaces que não utilizam ecrãs. Usando dois movimentos principais, como caminhar e respirar, e o arquivo oral, testamos o sistema numa Performance Sonora Telemática final entre as três cidades. 

 

Neste artigo, explicaremos como este projeto deu origem ao coletivo INTIMAL e como sentimos que este processo nos preparou para a pandemia do COVID-19. Começamos por explicar como o espaço do coletivo foi produzido e construído através de práticas de escuta e tecnologias de rede. A seguir, exploramos desenhos e receitas medicinais como momentos-chave de incorporações e, por fim, mostramos como essas incorporações foram essenciais para forjarmos um novo território virtual que sustente e ressignifique as memórias coletivas. 


 

2. A produção social e a construção do espaço

 

Segundo a antropóloga Setha Low, a produção social do espaço refere-se aos processos históricos, políticos e económicos por meio dos quais um espaço ou lugar passa a existir. Em contrapartida, a construção social do espaço inclui as mudanças e resistências que ocorrem quando as pessoas caminham, brincam, trabalham ou habitam em espaços sociais que são “transformados em lugares, cenas e ações que transmitem significados particulares”. 

 

Nesta lógica, a produção social do espaço coletivo INTIMAL surgiu a partir do projeto INTIMAL de Ximena Alarcón. Por ser colombiana e migrante, Ximena escolheu como estudo de caso a experiência de mulheres migrantes colombianas na Europa. Isso incluiu um arquivo oral de mulheres colombianas exiladas, coletado pela organização Mulheres da Diáspora em Londres e Barcelona. Assim, mulheres destas cidades, bem como mulheres residentes em Oslo, foram convidadas a fazer parte desta pesquisa. Para a seleção de nove participantes, o projeto enfatizou o nosso interesse em ouvir as nossas migrações e o arquivo oral. A plataforma Google Hangouts e um grupo do WhatsApp consolidaram-se como a estrutura interna do espaço incorporado do nosso coletivo. 

 

O conjunto de práticas de Deep Listening® — incluindo meditações sonoras, improvisação, sonhos e consciência corporal — desafiou-nos a ouvirmo-nos a nós mesmas e às outras sem julgamentos e tornou-se no nosso núcleo de interação social. Isso foi fundamental para: 1) construir o nosso espaço social, 2) comunicar um significado coletivo e individual, e 3) implementar um modo de gestão plural e horizontal. Para nós, esta construção social do espaço abriu uma possibilidade inesperada de ramificação do projeto original INTIMAL para o coletivo INTIMAL. Questões como o nosso desejo comum por uma Colômbia sem guerra, o nosso interesse comum nas artes e o nosso multilinguismo são os pontos centrais do desenvolvimento deste coletivo.

 

A nossa prática quinzenal online e a presencial (realizada uma vez na Noruega) de Deep Listening resultou em: improvisações coletivas de som e movimento corporal, uma pedra que foi teletransportada de mão em mão, segurando sentimentos e dando espaço para sermos ouvidas e a produção de desenhos que usamos e evocamos como símbolos significativos. Na verdade, longe de usar bandeiras ou hinos nacionais, o nosso imaginário consistia em sonhos compartilhados, contados por uma e desenhados por outra participante do coletivo. 

 

Chamamos a isto “momentos-chave de incorporação” e, como explicaremos na próxima seção, destacaremos os desenhos como uma prática incorporada especial que começou na pré-pandemia e os remédios que foram criados para lidar com a pandemia.

 

Ilustração de Silvia Esperanza Villalba Martínez.

 

3. Momentos-chave de incorporação

3.1. Desenhos


Durante as nossas sessões, algumas de nós fizeram desenhos ouvindo as histórias e os sonhos umas das outras, com o objetivo de fazer o seu registo (Tabela 1). Esses desenhos foram ações de registo gráfico, que nos ajudaram a aprender umas com as outras, refletir e dar sentido às nossas histórias e seus significados. Como consequência destas ações, surgiu um conhecimento comum, materializando sonhos e histórias.

 

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Tabela 1. Autoteorizações do processo coletivo INTIMAL de desenho.

Como os desenhos foram produzidos simultaneamente por participantes de diferentes partes do mundo, surgiram várias versões do mesmo sonho. Esses desenhos foram um subproduto de laboratório e alguns deles foram publicados na primeira edição de nosso Fanzine, criado coletivamente.

 

Como polvos cujas mãos têm vontade própria, criamos imagens umas das outras que funcionavam como hologramas, feitos de fragmentos de sonhos. Definimos estes espaços e ações claramente com os nossos desenhos e as sombras deixaram de existir.

 

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Ilustração de Liliana Rodríguez. Incluída na fanzine do INTIMAL.

Banana boat song

 

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Ilustração de Calu.

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Ilustração de Anita Ramírez.

3.2. Receitas medicinais

 

Desde setembro de 2019, as nossas reuniões online continuaram com o nome de “INTIMAL Veins and Arteries” (“Veias e artérias do INTIMAL”), incluindo o coletivo INTIMAL, e convidando também mais mulheres migrantes latino-americanas a participarem na nossa dinâmica de escuta migratória. Sabíamos intuitivamente que a nossa rica produção sonora, motora e visual estava a preparar-nos para algo. E assim, de fato, em março de 2020, quando o início da pandemia do COVID-19 impôs distanciamento social e encontros remotos, o sistema incorporado INTIMAL destacou-se connosco, em nós e para nós. Dada a nossa experiência de anos anteriores, tanto nos encontros telemáticos quanto na produção e construção do nosso próprio território virtual e cheio de significado, o nosso coletivo sentia-se unido por uma força especial. Assim, refletindo sobre as incorporações já vivenciadas e as suas propriedades curativas vibracionais, convocamos uma sessão na qual preparamos as nossas próprias receitas medicinais com o intuito de nos curarmos, nos protegermos e nos apoiarmos: Meditalín, Ajixsh e Amansa Corona. Essas três receitas misturaram fragmentos de sonhos, consciência corporal, texturas, componentes à base de ervas, paisagens e um sentido de humor que retratavam memórias do curandeirismo tradicional da América Latina (Tabela 2).

Ilustração de Violeta Ospina.

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Tabela 2. Receitas para COVID-19.

 

4. Um novo território virtual

 

No meio do confinamento, Ximena ofereceu um Laboratório INTIMAL com uma agenda gratuita, que funcionou por sete semanas consecutivas. Este espaço de improvisação serviu para questionar, ouvir, refletir e criar ações para apoiar e dar vazão aos sentimentos trazidos pelas novas experiências do coletivo e pela incerteza da pandemia. Numa reconfiguração do espaço coletivo, a partir da nossa perspetiva migratória, refletimos atualmente sobre o significado de um coletivo INTIMAL mais consolidado por mulheres migrantes latino-americanas na Europa. 

 

Enquanto o projeto original de Ximena continua a desenvolver o sistema INTIMAL na forma de um INTIMAL App© para ouvir viagens migratórias, o espaço social do coletivo INTIMAL tem-se consolidado como uma Colômbia heterotópica conectada à internet, mas também incorporada: um território virtual sem fronteiras que escuta e ressoa ritmos e sons vitais das nossas migrações, com tecnologias que circundam o corpo como um interface sensível para equilibrar a memória dos lugares nativos e do lugar presente que os hospeda; de uma pluralidade de corporeidades, identidades transatlânticas e femininas.

 

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Ximena Alarcón Díaz

A Dra. Ximena Alarcón-Díaz é uma artista sonora e professora certificada em Deep Listening®, com um doutoramento em Tecnologia e Inovação Musical e 13 anos de experiência de pós-doutoramento em pesquisa criativa, ouvindo a sua migração as de outras: através da voz, linguagem, movimento corporal, sistemas de transporte subterrâneos, sonhos e tecnologias de rede. Cria improvisações telemáticas usando Deep Listening e interfaces para a escuta relacional. Recebeu prestigiados prémios de investigação, como a Bolsa para Jovens Investigadores do Leverhulme Trust (2007-2009) e a Bolsa Individual Marie Skłodowska Curie (2017-2019), e menções artísticas honorárias como o IAWM New Genre Prize por “Sounding Underground” e prêmio de inovação Pamela Z na Conferência NIME 2019, por “INTIMAL”. Ela acredita no poder curativo que a improvisação e o som junto a outras pessoas entre locais distantes pode trazer aos sentimentos de perda geográfica e cultural, ao interconectar o local sensível e a presença sentimental.

info@ximenaalarcon.net

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Ana María Alarcón Jiménez

A Dra. Ana-María Alarcón-Jiménez concluiu o doutoramamento em Etnomusicologia pela Universidade Nova de Lisboa. Na sua dissertação, abordou a construção social e a produção social do Festival Internacional do Mundo Céltico de Ortigueira. Foi cofundadora do Grupo de Etnomusicologia do Instituto Catalão de Antropologia (ICA). Ela é tesoureira e webmaster da Seção sobre o Estatuto da Mulher da Sociedade de Etnomusicologia. Na vertente criativa, ela interessa-se pela arte sonora, música eletroacústica, música nova e experimental. Ela toca fagote e gosta de encontrar novas técnicas para tocá-lo e diversificar a sua paleta sonora.

anamaria.aj@protonmail.com

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Liliana Rodríguez

A Dra. Liliana Rodriguez é uma designer de serviços vencedora do prêmio Inovação do BMJ (British Medical Journal), com uma licenciatura em Design de Produtos, um mestrado em Design de Interação e um doutoramento em Serviços Digitais. Atualmente trabalha como contratada para os serviços de Teste e Rastreamento do DHSC (Departamento de Saúde e Assistência Social do Reino Unido) na secção de Equidade e Inclusão. A Liliana trabalhou em ambientes comerciais, sem fins lucrativos e no ensino superior, em projetos de design no campo da saúde financiados pela Saúde Pública da Inglaterra (PHE, na sigla em inglês), nos serviços digitais do UK (GDS) e no ramo da inovação para pequenas e médias empresas. Ela também é Professora Associada na Open University para os módulos de Experiência do Usuário & Design de Interação e Pensamento de Design.

lulugaia@gmail.com

Colectivo INTIMAL

Somos um coletivo de cocriação de mulheres migrantes latino-americanas na Europa, ouvindo as nossas migrações que surgiram do projeto de pesquisa e arte “INTIMAL: Interfaces for Relational Listening, Body, Memory, Migration, Telematics”. Desenvolvemos ações criativas para a atuação individual e transformação coletiva nas nossas terras de acolhimento e locais nativos. No espaço virtual, encontramo-nos regularmente para ouvir e realizar sonhos e viagens migratórias, ampliando noções de feminilidade, território e cuidado. intimalcommunity@gmail.com

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This article is part of the issue ‘Empowering global diasporas in the digital era’, a collaboration between Routed Magazine and iDiaspora. The opinions expressed in this publication are those of the authors and do not necessarily reflect the views of the International Organization for Migration (IOM) or Routed Magazine.

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